Exposição de trabalhadores rurais a agrotóxicos está sendo estudada em projeto do PPSUS

Num país que ocupa a 7ª posição no ranking mundial de uso de agrotóxicos, e sendo Santa Catarina o 4º estado com maior uso de pesticidas no Brasil, pesquisadores da área da Saúde se preocupam com os impactos da exposição dos trabalhadores aos agrotóxicos e com a contaminação da água. Três projetos com temáticas que se complementam foram apoiados pela FAPESC (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina) no âmbito do PPSUS (Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde), realizado em parceria com o Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado da Saúde. Eles foram apoiados com outros 19 estudos pela chamada 10/2015 e devem ser concluídos até agosto de 2019.

Quase 50 trabalhadores rurais de Santo Amaro da Imperatriz passaram por baterias de exames para avaliar indicadores biológicos de exposição, de efeito e genotoxicidade dos agrotóxicos. A possibilidade de alterações de ordem endocrinológica, hematológica, neurológica e até mesmo fonoaudiológica nesses pacientes também está sendo estudada. O projeto coordenado pela pesquisadora Cláudia Regina dos Santos, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) vem sendo desenvolvido em contato direto com as Unidades de Saúde do município, e a experiência tem sido considerada positiva pela equipe do projeto e pelas Agentes  Comunitárias de Saúde: “a princípio houve certa resistência da equipe de saúde local por não acreditar na adesão à proposta, por parte dos agricultores, mas não é o que vem sendo observado. Percebe-se que se trata de uma população que carece de atenção mais direta, seja por residirem longe da Unidade de Saúde, ou mesmo por não poderem discutir e expor suas opiniões sobre o uso dos agrotóxicos e a própria saúde”, relata a pesquisadora.

O objetivo é estimar possíveis relações entre a exposição, os indicadores biológicos e as alterações clínicas encontradas na população de estudo. O estudo ajudará a identificar a presença de agrotóxicos no sangue, e, caso observada a presença, quantificá-la, pois dentre os agricultores já avaliados houve o relato do uso de mais 64 ingredientes ativos. Também serão estimadas a prevalência de alterações nos indicadores biológicos, alterações no perfil imunológico, entre outras. De acordo com dados da Fiocruz e do Ministério da Saúde, em 2017 foram registrados 4.003 casos de intoxicação por exposição a agrotóxicos em todo o país, e 164 pessoas morreram ao entrar em contato com o veneno e 157 ficaram incapacitadas para o trabalho.

A pesquisa está em estado avançado, com recrutamento, avaliações laboratoriais, fonoaudiológica e clínicas, e exames de imagem já realizados. Os dados foram tabulados e algumas informações avaliadas parcialmente, para que os pacientes tivessem um retorno da equipe, e o último passo é fazer a análise estatística. “Esperamos que com as avaliações que estão sendo realizadas, seja possível propor às Unidades de Saúde exames específicos para monitorar a saúde de agricultores e oferecer atenção à saúde, considerando sua exposição a agrotóxicos”, diz a pesquisadora.

Os impactos da exposição a dois tipos de agrotóxicos no sistema nervoso central e suas implicações no metabolismo animal já estão sendo estudados por uma equipe do Departamento de Bioquímica da UFSC, coordenada pela prof Ariane Zamoner de Souza. Além destes dois projetos, estão sendo desenvolvidos novos procedimentos para analisar resíduos de agrotóxicos em água de consumo humano, com elaboração de protocolos de análise e a avaliação de novos parâmetros.  O estudo, realizado pelo Laboratório de Cromatografia e Espectrômetria Atômica da UFSC, sob coordenação do prof. Eduardo Carasek, já validou e desenvolveu quatro novas metodologias para determinar agrotóxicos em amostras de água.

Por: Jéssica Trombini – Coordenadoria de Comunicação da FAPESC