Pesquisa financiada pela FAPESC conquista prêmio de Medicina

Um trabalho científico na área de Cirurgia de Epilepsia, realizado em Florianópolis com apoio financeiro dos governos estadual e federal, conquistou o Prêmio Paulo Niemeyer de Estudos em Cirurgia de Epilepsia. Os resultados do estudo foram publicados na edição de 7 de junho da revista Molecular Psychiatry do grupo Nature, e podem ser acessados neste link. 

Tanto o prêmio quanto a publicação dizem respeito a descobertas que envolvem mecanismos de mudança nas sinapses de regiões do cérebro que podem estar relacionadas à percepção e às reações vinculadas ao medo. Foram estudadas regiões que compõem circuitos cerebrais envolvidos com a sensação do medo, relacionados às respostas hormonais e físicas quando se está diante de uma ameaça, seja ela real ou imaginária.  Essas respostas são imprescindíveis para a preservação da espécie, e altamente preservadas do ponto de vista evolutivo tanto em animais inferiores como nos seres humanos. Quando ativadas de forma “excessivamente forte” e em pessoas com uma predisposição, eventos altamente estressantes – por exemplo estupro, assalto, catástrofes naturais e guerras –, podem acarretar modificações nestes circuitos, levando ao chamado estresse pós-traumático. “Por outro lado, eventos que acarretam respostas de estresse menos intensas, porém de forma repetitiva e também em indivíduos com predisposição, modificam estes circuitos cerebrais, acarretando a depressão”, afirma o Prof. Dr. Roger Walz, do Departamento de Clínica Médica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). O neurocientista clínico e seus colaboradores receberam a premiação em São Paulo, no dia 6 de junho, durante o Congresso da Liga Brasileira de Epilepsia. Foi a primeira vez que o prêmio Paulo Niemeyer foi conferido a pesquisadores catarinenses.

O prêmio coroa os 10 anos de trabalho da equipe multidisciplinar em cirurgia de epilepsia coordenada por Walz, composta de neurologistas, neurofisiologistas, neurocirurgião, psiquiatra, neuropsicóloga e enfermeiras do SUS (Sistema Único de Saúde), sem contar pesquisadores da área de neuroquímica básica. Ao longo deste período – tempo necessário para seleção dos pacientes, realização das cirurgias e publicação dos resultados – também foram formados vários médicos especialistas, mestres, doutores e pós-doutores. A cirurgia de epilepsia além promover a melhora significativa da qualidade de vida dos pacientes, por permitir o estudo de amostras de tecido cerebral humano, é uma oportunidade ímpar para a realização de pesquisas que facilitam a compreensão de mecanismos de neuroplasticidade envolvidos com as reações de estresse e medo intimamente ligadas às doenças psiquiátricas, como depressão, síndrome do pânico, transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático.

Intitulado “Níveis da subunidade GluA1 na amígdala e seu estado de fosforilação na serina 845 no hipocampo anterior são biomarcadores de medo ictal mas não de ansiedade”, o trabalho foi conduzido por equipes multidisciplinares do Hospital Governador Celso Ramos, do Hospital Universitário e do Centro de Ciências Biológicas da UFSC. Os profissionais fizeram análises complexas de modificações das sinapses – regiões microscópicas que fazem a transmissão química do sinal elétrico cerebral – em estruturas cerebrais envolvidas com a percepção de medo e que são retiradas durante a cirurgia de epilepsia de lobo temporal. O projeto foi financiado pela FAPESC/CNPq através dos editais para Projetos de Pesquisa para o SUS (PPSUS) e Programa de Núcleos de Excelência (PRONEX).

 

Beneficiários

Em torno de 1% da população brasileira apresenta crises epilépticas recorrentes e 1/3 dos pacientes com epilepsia não controla adequadamente as crises epilépticas por meio de remédios. Estes pacientes são candidatos à avaliação para cirurgia de epilepsia, realizada em alguns poucos centros especializados do país, entre eles o do Hospital Universitário da UFSC, segundo a Professora Dra. Kátia Lin, chefe do serviço de neurologia do HU e colaboradora do trabalho. Estima-se que hoje em Santa Catarina 60.000 pacientes com algum tipo de epilepsia dos quais 20.000 não conseguem controle de suas crises epilépticas com tratamento farmacológico adequado. A cirurgia de epilepsia, quando bem indicada, é a única alternativa para ao menos metade destes pacientes.

O prêmio Paulo Niemeyer foi concedido no 37° Congresso da Liga Brasileira de Epilepsia

Em algumas situações, a região que inicia as crises pode ser ressecada cirurgicamente, com até 75% de chance de remissão completa das crises a longo prazo, explica o Prof. Dr. Marcelo Linhares, também da UFSC. A área retirada durante as neurocirurgias que ele fez no Hospital Celso Ramos e no HU da UFSC contém circuitos anormais que causam as crises epilépticas e que, no caso da epilepsia do lobo temporal, podem gerar sintomas específicos percebidos pelos pacientes logo no início da crise, as chamadas “auras epilépticas”.

A equipe descobriu que pacientes que manifestam um determinado tipo de aura durante a crise epiléptica descrita como uma intensa “sensação de medo”, apresentam modificações sinápticas muito específicas nas regiões cerebrais chamadas amígdala e hipocampo. Estas modificações não são observadas nos pacientes que não apresentam esta manifestação.

Também colaborador da pesquisa, o Prof. Dr. Rodrigo Leal, do Departamento de Bioquímica da UFSC, e coordenador do laboratório especializado em técnicas de neuroquímica utilizadas no projeto, salienta que este foi o primeiro estudo publicado na literatura científica mundial avaliando o estado de fosforilação de proteínas sinápticas específicas em estruturas do “circuito de defesa e sobrevivência” e relacionando-as à sensação de medo em seres humanos.

O artigo está circulando também neste portal especializado para divulgação científica internacional: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29880883.

Fonte: Coordenação de Comunicação da FAPESC, com dados da UFSC.