Pesquisadores apoiados pela Fapesc identificam fungos ameaçados e alertam para a necessidade de políticas de conservação

Rickiella edulis é uma espécie saprotrófica (absorve nutrientes de matéria orgânica em decomposição) que ocorre na Mata Atlântica, na Argentina e no Paraguai. É considerada em perigo pelos critérios da IUCN. Foto: Gerardo Robledo

Um fungo que transforma insetos em zumbis no Vale do Itajaí e um líquen que só é encontrado entre as dunas de uma praia de Imbituba são algumas das, pelo menos, 21 novas espécies de fungos e liquens brasileiros que serão incluídas na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), um dos principais inventários do mundo sobre estado de conservação de animais, fungos e plantas.

A ação é resultado de um workshop organizado pelo grupo de pesquisa Mind.Funga, ligado ao Laboratório de Micologia (Micolab) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com a Comissão para a Sobrevivência de Espécies de Fungos da IUCN. Os encontros realizados ao longo de setembro e outubro reuniram, além das equipes do Mind.Funga e do Micolab, 18 pesquisadores de nove estados das cinco regiões do país. Até o fim do ano, o grupo segue em processo de avaliação para outras 30 propostas de inclusão de espécies na Lista Vermelha.

O primeiro workshop brasileiro de avaliação de espécies de fungos para a Lista Vermelha Global da IUCN, além da formação de recursos humanos para a classificação das espécies nas categorias de ameaça e a aplicação dos critérios da IUCN, teve o intuito de engajar os pesquisadores no tema da conservação. As primeiras reuniões visaram à capacitação dos participantes na elaboração da documentação necessária. Posteriormente, as propostas elaboradas pelo grupo foram analisadas por dois avaliadores credenciados da IUCN: o cientista-chefe do Jardim Botânico de Chicago, Gregory M. Mueller, e a professora da Eastern Washington University Jessica Allen.

As 21 espécies já avaliadas são distribuídas em dois filos (Ascomycota e Basidiomycota) e oito ordens, e a maior parte está ameaçada de extinção em algum grau. São quatro criticamente em perigo (risco extremamente elevado de extinção na natureza); três em perigo (risco muito elevado de extinção na natureza); nove vulneráveis (risco elevado de extinção na natureza); quatro quase ameaçadas (categoria de baixo risco, mas com espécies perto de serem classificadas ou que provavelmente serão incluídas em uma das categorias de ameaça em um futuro próximo); e uma na categoria “Dados Deficientes” (faltam dados adequados sobre a sua distribuição e/ou abundância para fazer uma avaliação direta ou indireta do seu risco de extinção). 

Ophiocordyceps ainictos foi avistado somente duas vezes em 120 anos. Foto: Felipe Bittencourt

Este último é o caso do Ophiocordyceps ainictos, um fungo que ataca e parasita larvas, provavelmente de borboletas ou mariposas, e controla seu comportamento, transformando-as em verdadeiros zumbis. Acredita-se que ele seja endêmico da região do Vale do Itajaí. “É uma espécie extremamente rara e que em 120 anos foi encontrada apenas duas vezes, sendo tão rara e misteriosa que nem foi possível determinar o seu grau de ameaça, ficando na categoria ‘Dados Deficientes’, o que indica que ela deve ser um foco de estudos para que possamos entender melhor sua biologia e distribuição, possibilitando assim uma melhor compreensão do quão ameaçada ela está”, informam o professor Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos e o pós-doutorando Diogo Henrique Costa Rezende, ambos pesquisadores do Mind.Funga e coordenadores do workshop.

Espécie ataca e parasita larvas e controla seu comportamento. Ilustração de A. Möller (1901)

Outra espécie endêmica de Santa Catarina é a Cladonia dunensis, um líquen encontrado apenas em uma faixa entre as dunas da Praia de Itapirubá, em Imbituba. Por conta dessa distribuição extremamente restrita, e justamente numa área altamente visada pelo turismo e alvo de especulação imobiliária, ela foi avaliada como criticamente ameaçada de extinção. Ou seja, se nada for feito, tem uma chance alta de desaparecer nas próximas décadas.

Quatro das espécies já avaliadas constarão no próximo release on-line da IUCN, que será divulgado em dezembro; as demais serão publicadas no decorrer do próximo ano. Na página do workshop, é possível conferir todas elas, bem como as que ainda estão em processo de análise. Outras espécies que ocorrem no território brasileiro e já foram publicadas na lista vermelha global podem ser acessadas no site do Mind.Funga.

Líquen Cladonia dunensis é encontrado apenas em uma faixa entre as dunas da Praia de Itapirubá, em Imbituba. Foto: Emerson Gumboski

Conservação de fungos e liquens

Os resultados do workshop chamam a atenção para a necessidade de se implementar, no país, políticas de conservação da funga – termo que designa as espécies de fungos de uma determinada região, assim como a flora e a fauna dizem respeito às plantas e aos animais. “Todos saímos do workshop com o entendimento de que algo maior precisa ser feito para que os fungos de fato sejam considerados no cenário nacional da conservação da biodiversidade”, comentam os coordenadores.

Fomitiporia nubicola é uma espécie degradadora de madeira que, até agora, só foi encontrada no Vale do Itajaí e no Parque Nacional de São Joaquim, mas pode ser que esteja também na região Sudeste do Brasil. Ameaçada de extinção, é considerada vulnerável pelos critérios da IUCN. Foto: G. Alves-Silva

Os fungos são essenciais para a vida em nosso planeta. Mesmo que nem sempre notemos, eles são parte importante do nosso cotidiano. A produção de medicamentos e a alimentação (além dos cogumelos, também estão presentes na fabricação de queijos, pães, vinhos e cervejas, entre outros) são apenas alguns exemplos. Os fungos estão envolvidos em processos-chave nos ecossistemas naturais e permitem que a vida como a conhecemos exista.

“No entanto, mais de 90% das espécies de fungos são desconhecidas pela ciência, e sabemos que muitas delas podem estar ameaçadas de extinção. Sendo assim, estamos correndo um risco iminente de perder espécies de grande importância ecológica e até econômica sem sequer conhecê-las. Esse cenário só pode ser mitigado com o investimento de recursos para o reconhecimento dessa biodiversidade desconhecida, bem como daquelas espécies que estão ameaçadas de extinção, acompanhado de políticas que considerem os fungos em estudos de impacto ambiental, planos de ação nacional e como indicadores de áreas prioritárias para conservação”, apontam Drechsler-Santos e Costa-Rezende.

Aegis luteocontexta é mais uma espécie degradadora de madeira considerada rara e vulnerável. Ocorre na Mata Atlântica e potencialmente na Amazônia, além da Guiana e da Costa Rica. Foto: Felipe Bittencourt

Não há, contudo, qualquer tipo de política de conservação de fungos no Brasil – eles nem mesmo são mencionados em leis ou planos de conservação. Também não existe uma lista vermelha para a funga no país – há relações oficiais somente para a flora e a fauna. “É urgente não só a necessidade de capacitar os micólogos para as avaliações de estado de conservação das espécies, mas também disseminar entre acadêmicos e população que os fungos estão sob ameaça, e que não existe nenhuma política pública para defendê-los, pois essa é única forma para os fungos ganharem visibilidade na agenda nacional de conservação”, enfatizam os coordenadores do workshop. 

Avaliar as espécies e reconhecê-las como ameaçadas de extinção é apenas o primeiro passo que deve ser dado. Uma grande conquista, salientam os pesquisadores, seria o reconhecimento, por parte do Ministério do Meio Ambiente, dessas espécies de fungos já avaliadas e publicadas pela IUCN. “Existem muitas necessidades para que os fungos sejam verdadeiramente reconhecidos em uma agenda de conservação nacional, para isso os fungos precisam ser reconhecidos em uma política pública que envolve toda a sociedade, instituições e o próprio governo, através do Ministério do Meio Ambiente, para que os fungos sejam incorporados nos aspectos legais da conservação brasileira”, reforçam Drechsler-Santos e Costa-Rezende.

Avaliar as espécies e reconhecê-las como ameaçadas de extinção é apenas o primeiro passo que deve ser dado. Uma grande conquista, salientam os pesquisadores, seria o reconhecimento, por parte do Ministério do Meio Ambiente, dessas espécies de fungos já avaliadas e publicadas pela IUCN. “Existem muitas necessidades para que os fungos sejam verdadeiramente reconhecidos em uma agenda de conservação nacional, para isso os fungos precisam ser reconhecidos em uma política pública que envolve toda a sociedade, instituições e o próprio governo, através do Ministério do Meio Ambiente, para que os fungos sejam incorporados nos aspectos legais da conservação brasileira”, reforçam Drechsler-Santos e Costa-Rezende.

Wrightoporia araucariae, até o momento, só foi vista crescendo em troncos mortos de araucária – e somente cinco vezes, na região Sul do país. Potencialmente, segue a distribuição geográfica da árvore. Está criticamente ameaçada de extinção. Foto: M.A. Reck

Mind.Funga

Além dos estudos sobre as comunidades de fungos, o Mind.Funga se dedica a ações de extensão e educação científica, como a produção de um livro infantil. Também se destacam os projetos de Ciência Cidadã, nos quais os moradores dos entornos das Unidades de Conservação somam esforços com os pesquisadores para ampliar o reconhecimento de espécies nativas. O grupo tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Informações de Camila Raposo/Jornalista da Agecom/UFSC