Por que os brasileiros pouco se envolvem nas políticas públicas de ciência?

Não é novidade que os brasileiros se interessam por ciência e tecnologia. A primeira pesquisa nacional de percepção pública da ciência, realizada três décadas atrás, já indicava isso. Mas ainda pairam algumas dúvidas em relação ao fato de a maioria da população se envolver tão pouco com a área e não reivindicar, junto com a comunidade científica,  melhores políticas públicas para o setor, ainda mais neste momento tão adverso para a ciência no país. A divulgação científica, para especialistas desse campo, na forma como é feita atualmente, não tem sido suficiente para engajar a população em ações mais práticas e novas alternativas precisam ser pensadas.

A Marcha pela Ciência, por exemplo, reuniu em diversas cidades do Brasil, em mais de uma oportunidade durante o ano de 2017, majoritariamente membros da comunidade científica, com pouca participação de outros setores da sociedade nesse protesto contra o corte no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) e por uma ampliação do conhecimento da população sobre o que é pesquisado pelos cientistas no país.

Patricia Aline dos Santos, pesquisadora associada do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp nas áreas de percepção pública e divulgação científica, comenta a baixa participação de pessoas não ligadas à ciência nas recentes manifestações em prol da ciência: “As marchas demonstraram que a população participa muito pouco das demandas políticas de ciência e me parece que os protestos ficaram bem mais restritos à comunidade científica. Apesar de o fato estar em pauta, ele não refletiu na população. Quando houve cortes na cultura, por exemplo, a situação foi diferente”, relembra.

Segundo o estudo “A ciência e a tecnologia no olhar dos brasileiros – percepção pública da C&T no Brasil”, realizado em 2015 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), cerca de 60% dos 1962 entrevistados em todas as regiões do Brasil demonstraram pelo menos algum interesse por C&T. O índice é comparável às médias de outras nações que já realizaram pesquisa semelhante. O tema chega a atrair maior atenção dos brasileiros do que assuntos ligados à arte, cultura, esportes, moda e política, por exemplo. A porcentagem de pessoas que declararam não ter qualquer interesse por C&T, inclusive, tem diminuído fortemente nas últimas décadas: de 28%, em 1987, para 23%, em 2006, 15%, em 2010, e 13%, em 2015.

“A sociedade vê a ciência como geradora de resultados aplicáveis às suas vidas e capaz de solucionar problemas como, por exemplo, na área de saúde e de mudanças climáticas”, explica Adriana Badaró de Carvalho Villela, membro do corpo técnico do CGEE, organização social supervisionada pelo MCTIC. Pelos resultados da pesquisa, inclusive, o Brasil pode ser considerado um dos países mais otimistas em relação à ciência e tecnologia, com índice similar ao da China e à frente dos Estados Unidos.

Patricia Santos, da Unicamp, destaca que o levantamento do CGEE mostra que os brasileiros também são favoráveis à aplicação de recursos para pesquisa, com prioridades em medicamentos e tecnologias médicas. “Cerca de 78% dos entrevistados apoiam os investimentos em ciência e tecnologia. Esse número chega a ser maior do que na França e nos Estados Unidos”, ressalta. Na Espanha e na Suécia, essa porcentagem fica em torno de 40%, enquanto que na Alemanha e no Reino Unido cai para cerca de 25%. Quando questionados sobre as principais razões para não haver um desenvolvimento maior em C&T no país, os entrevistados apontaram na pesquisa razões como: insuficiência de recursos (53%); laboratórios mal equipados (19%); baixo nível educacional da população (17%); dependência, por parte do Brasil, de tecnologia estrangeira (13%), entre outros.

Mas então por que será que esse apoio e interesse do público sobre ciência e tecnologia ainda não se reflete em ações mais práticas, como a maior participação da sociedade no setor e na formulação de melhores políticas públicas? Para o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira, essa característica do brasileiro parece estar diretamente ligada à sua reticência histórica na efetiva participação política.

“A população brasileira participa muito pouco do processo de elaboração das políticas de ciência, mas isso não é restrito ao nosso setor. Não se tem no Brasil uma tradição democrática fortalecida da sociedade civil”, afirma Moreira. “Muitas vezes, a participação de grande parte dos próprios membros da comunidade científica também é pequena e alguns até fazem avaliação ruim dos movimentos”, acrescenta o presidente da SBPC em referência à Marcha pela Ciência.

Alguns indicadores da última pesquisa de percepção pública da ciência também ajudam a compreender um pouco melhor os motivos por trás do baixo envolvimento público com as questões relativas à ciência. O levantamento mostra, por exemplo, que é baixa a taxa de visitação dos brasileiros a espaços científico-culturais e de participação em atividades públicas de popularização da ciência comparada aos padrões europeus, apesar de o índice ter aumentado nos últimos anos.

“Quando questionados sobre o porquê da baixa visitação a esses espaços, as respostas mais frequentes demonstram muito mais a falta de acesso ou de conhecimento do que falta de interesse. Ou seja, a oferta é restrita e a informação é esparsa”, afirma Villela, do CGEE. Além disso, a maioria da população declara que nunca ou quase nunca se informa sobre C&T, somente 6% declarara conhecer o nome de algum cientista brasileiro e apenas 12% lembra do nome de alguma instituição de pesquisa.

“É importante destacar o papel da mídia no processo de popularização da ciência. Pouco se fala das conquistas dos nossos cientistas e de suas instituições. Os cadernos sobre ciência e tecnologia (dos jornais), por exemplo, estão cada vez menores ou deixando de existir. Fala-se mais dos destaques e progressos da ciência em outros países do que da nacional. É preciso um trabalho conjunto entre mídia, governo e comunidade científica para popularizar a nossa ciência”, avalia Villela.

De acordo com Santos, da Unicamp, as iniciativas de divulgação científica têm crescido nos últimos anos no Brasil, mas elas ainda precisam ser melhor adaptadas em tempos digitais. “O país tem uma história em divulgação científica. Temos caminhado e formado vários divulgadores, mas também temos que lidar sempre com novos desafios. Precisamos aprimorar a forma de divulgar e talvez isso passe pelas mídias digitais”, avalia. A televisão é o meio mais utilizado pela população para se informar sobre pesquisas científicas (21% com muita frequência e 49% com pouca frequência), mas a internet já se aproxima desse patamar (18% com muita frequência e 30% com pouca frequência).

Segundo a pesquisadora da Unicamp, é preciso ter uma visão mais estratégica para se fazer o trabalho de divulgação, buscando avaliar resultados e conhecer quais são as limitações atuais da ciência, dentre elas a reticência de parte dos próprios pesquisadores em informar sobre seus trabalhos. “Não faz parte da atividade do cientista trabalhar com comunicação na prática. Temos também algumas impressões sobre a falta de tempo para isso e as instituições precisam oferecer espaço para essa divulgação ser feita. Mas encontrar um caminho para trabalhar o diálogo entre ciência e sociedade é muito importante”, afirma Santos.

“A divulgação científica é importante, mas não basta”, pondera Moreira. “A comunidade se esforça, mas precisamos ter estratégias melhores, trabalhando mais as mídias sociais, já que a imprensa ainda dá pouco espaço para a ciência no Brasil”, pontua. Os grandes veículos de comunicação, normalmente, tendem a dar espaço maior para a ciência apenas em momentos polêmicos, como no caso da liberação do Supremo Tribunal Federal (STF) de pesquisas com células-tronco embrionárias, em 2008. Além disso, segundo Moreira, a educação científica também deve ser estimulada nas escolas a todo momento. “A ponte central é uma educação de qualidade”, complementa.

Dados da enquete de 2015 de percepção pública de ciência e tecnologia mostram que a população gostaria de ser ouvida nas grandes decisões sobre o tema. A discreta participação da sociedade nas demandas e na formulação de políticas do setor ocorre justamente em um dos momentos mais delicados para a área científica brasileira nos últimos anos. Em 2017, o governo federal reduziu o orçamento do MCTIC em 44%, para R$ 2,8 bilhões mas, através de negociações e em meio aos protestos da comunidade, os investimentos foram elevados para R$ 4,5 bilhões, um montante que ainda representa cerca de um terço do que era aplicado nos últimos anos.

“Temos todas as razões para estarmos preocupados. Talvez esse seja o pior momento para a ciência nacional desde a década de 1990, quando passamos a ter um crescimento significativo de recursos destinados à pesquisa. Se continuarmos nesse cenário, voltaremos ao patamar da ciência de 20 anos atrás”, avalia Moreira. O presidente da SBPC ressalta ainda que o atual momento da ciência brasileira, em meio à escassez de recursos, já tem claros reflexos: “A sensação é de desânimo. Cientistas estão indo trabalhar no exterior e os jovens tendem a não ingressar em áreas científicas diante dessa situação. Se não tivermos um maior envolvimento, todos vão pagar um preço muito alto. A pesquisa no Brasil será atingida e o impacto ocorrerá na qualidade de vida das pessoas”.

Paradoxo dos investimentos na ciência brasileira

O ano de 2018 já começou com a perspectiva de ser ainda pior que 2017 para a ciência brasileira. O orçamento aprovado pelo governo federal neste ano, considerado catastrófico por Moreira, é de R$ 4,1 bi, ainda menor do que no ano anterior. Isso somando ciência, tecnologia e também a área de comunicação, que deixou de ter uma pasta própria e passou a integrar o mesmo ministério, o MCTIC.

“Além do corte no MCTIC, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) também teve redução em torno de 20% no seu orçamento. Várias outras instituições também tiveram redução e várias bolsas foram congeladas. O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), por exemplo, ainda tem parcelas em aberto de editais do ano de 2016 e a questão federal já impacta as fundações de amparo à pesquisa nos estados”, alerta Moreira.

Tradicionalmente, a iniciativa privada investe pouco em ciência no Brasil. Em outros países, por exemplo, as empresas chegam a aplicar até mais recursos do que o governo. Não bastasse isso, paradoxalmente, no Brasil há ainda, normalmente, uma forte redução de investimentos em momentos de crise, quando o ideal, segundo o presidente da SBPC, deveria ser o contrário. “Nesses momentos complicados, como acontece agora, não há saída. As empresas, que já contribuem muito pouco, tendem a reduzir ainda mais seus investimentos”, explica Moreira.

Desafios para a próxima pesquisa de percepção

O último levantamento sobre percepção pública da ciência no Brasil foi realizado em 2015. O CGEE, em conjunto com o MCTIC, trabalha para realizar uma nova pesquisa nos próximos meses, mas ainda não existe uma data definida para seu início. Segundo Villela, do CGEE, algumas novidades já estão sendo estudadas para o próximo levantamento.

“Merece destaque investir em novas metodologias para apurar a percepção e o impacto de como ocorre a divulgação por meio de mídias sociais e novas formas de comunicação, que se dá de maneira cada vez mais rápida, diferente do que era há uma década. Outro desafio é trabalhar a linguagem e a compreensão do questionário, já que o termo ciência e tecnologia é bastante amplo e genérico e pessoas podem atribuir a essa expressão significados ou conotações diferentes”, considera.

Ainda segundo a técnica do CGEE, dependendo do perfil (profissão, camada socioeconômica, formação e idade), alguns entrevistados podem pensar principalmente em aplicações tecnológicas, como os celulares, a internet e os avanços em tecnologias médicas quando questionado sobre C&T, e não em um aspecto mais focado em pesquisa científica e tecnológica.

Fonte: Jhonatas Simiao – Com Ciência