Investidor Anjo: aprenda o passo a passo para receber aporte financeiro, mentoria e rede de contatos

Abençoados – Os sócios Manoel Victor Tomaz (à esq.), Daniele Guarez e Rodolfo Lanser Bloemer, da startup Marvee, em Blumenau, receberam um impulso de R$ 300 mil para crescer e colocar em prática suas ideias inovadoras / Divulgação, Marvee

Giovana Pietrzacka
Centro de Inovação Blumenau / comunicacao@institutogene.org.br

Ilustrações Jenyffer Albuquerque
Fapesc / jenyffer.albuquerque@fapesc.sc.gov.br

Quem tem uma startup já deve ter precisado de dinheiro extra para dar aquele pontapé inicial no negócio, complementar alguma ação ou ainda avançar no mercado. Neste momento, quando não se tem caixa próprio suficiente, entra em cena a figura do investidor anjo.

A expressão investidor anjo não é recente. Ela surgiu na década de 1920 nos teatros da Broadway, em Nova York. Naquela época, alguns empresários bancavam os altos custos das produções teatrais, apoiavam a execução e participavam do retorno financeiro. Foi neste contexto que estas pessoas começaram a ser conhecidas como anjos, angel investor ou business angel

Com o tempo, o conceito evoluiu. Hoje é mais usado para nominar quem investe em empresas iniciantes, geralmente startups, que buscam oportunidades de crescimento.

Hub de inovação em Blumenau abriga SC Angels

Desde a inauguração do Centro de Inovação Blumenau (CIB), em 2020, diversos investidores anjo se organizam para aportarem recursos em maior quantidade em startups catarinenses.

Foi a conexão deste importante hub de inovação que impulsionou conversas que alavancaram novos negócios. Assim, em março de 2021, foi criada a SC Angels, uma associação de investidores anjo que começou com 50 pessoas e, hoje, conta com quase 90 investidores espalhados em todo o Estado. 

“O CIB é onde as conexões acontecem, e não existe investimento anjo se não houver conexão. Por isso, o CIB é o caldeirão onde todo mundo se encontra”, diz Rafael Silva, presidente da SC Angels. Silva é empreendedor desde 2002 e investidor anjo desde 2011, com 37 negócios em ação.

Em Santa Catarina, de acordo com o presidente da Rede de Investidores Anjo (RIA), Fábio Ferrari, cerca de 60 associados integram o quadro da entidade, que nasceu em 2016, uma parceria entre a Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e Anjos do Brasil.  “Em 2021 foram aportados R$ 1,2 milhão em startups catarinenses. Em 2020, o grupo investiu cerca de R$ 300 mil”, afirma Ferrari.

Quem pode se beneficiar

Cacio Packer, founder da SC Angels, explica que a associação atua em três eixos principais: capacitar pessoas com perfil para investir; dar oportunidade de investimentos para associados com mais experiências; fortalecer a participação de todos no processo de investimento. 

Há três tipos de associados: apoiador, investidor  e empreendedor. “Na associação temos uma tese de investimento, entre eles, ter dois ou mais sócios,  modelo de negócio B2B e escalável, ter uma receita inicial e estar captando até R$ 1 milhão. Mas, caso nosso associado tenha interesse em um negócio em particular, ele tem total independência para investir”, destaca o founder da SC Angels.

Assim foi o caso da startup Marvee, especializada em BPO financeiro, ao receber capital de investidores anjo independentes, porém, associados à SC Angels.

Movimento cresce no Brasil

Assim como ocorre em Santa Catarina, o número de investidores anjo está aumentando no Brasil. De acordo com levantamento da Anjos do Brasil, organização sem fins lucrativos que fomenta o empreendedorismo inovador, em 2020, estava cadastrados 6.956 investidores desta categoria. No mesmo ano, de acordo com a entidade, foram aportados R$ 856 milhões em startups.

“Em 2021, primeiro ano de existência, a SC Angels fez aportes em duas startups, somando R$ 500 mil em investimentos. Em 2022 nossa meta é investir em, pelo menos, quatro novos negócios no Sul do Brasil”, destaca Cacio Packer, diretor e co-founder da SC Angels e investidor de startups há mais de 5 anos. 

A escolha em quem investir se dá por meio de pitchs virtuais ou presenciais realizados mensalmente. Já foram feitos pitchs em Blumenau, Jaraguá do Sul, Itajaí e Florianópolis, todos com avaliadores gabaritados e qualificados no mundo das startups.

Investimento para impulsionar o empreendedorismo inovador catarinense

De olho nesta nova oportunidade, a startup Marvee, com sede no Centro de Inovação Blumenau, decidiu aceitar a proposta apresentada por dois investidores anjo no valor de R$ 300 mil. Fundada em fevereiro de 2020, com o nome de M. Victor, a startup especializada em BPO financeiro e com um histórico positivo, não estava precisando de capital tão cedo. 

“Os investidores anjos estavam no nosso radar. Queríamos primeiro entregar mais coisas e depois buscar investidor. No início do segundo semestre de 2021, eles nos procuraram por acreditar no time e no projeto. Então, a gente antecipou”, comenta Manoel Victor Tomaz, sócio-fundador da Marvee.

O empreendedor conta que parte desse valor veio carimbado para ser aplicado, principalmente, na área de tecnologia, uma vez que um dos investidores é desta área e viu a necessidade de ampliação e atualização da empresa neste setor. 

“Tínhamos um objetivo para o final de 2021, mas superamos o faturamento planejado entre 20 e 30%”, completou Tomaz. Com o investimento, a meta é triplicar a atual base de clientes nos próximos dois anos, além de aumentar o time, passando dos atuais 15 funcionários para 50, nos próximos 18 meses.

Esta projeção de crescimento rápido não ocorre somente pelo money aplicado pelos investidores anjo. Estas figuras têm um papel abrangente, com uma assistência conhecida como smart-money, ou seja, dinheiro acompanhado de conhecimento.

Muitas vezes, o investidor anjo não tem tempo para estar diretamente envolvido na operação, ou para se doar inteiramente para o negócio. Por  isso, na maioria dos casos, ele passa a integrar o conselho consultivo da empresa e têm acesso às movimentações para orientar e aconselhar, uma vez que seu know-how vem para auxiliar e apontar passos importantes. 

“O anjo entrega algo intangível, ou seja, seu networking, virando um mentor e conselheiro da startup”, avalia Manoel Victor.

Quem pode ser investidor anjo

Do outro lado – Thiago da Silva recebeu investimento anjo e agora investe em startups / Acervo pessoal

Mas, afinal, quem pode ser investidor anjo? Esta é uma das principais perguntas que surgem neste assunto. Ter dinheiro é um dos requisitos básicos, sim. O investidor anjo é a pessoa física, seja executivo ou empreendedor, que aplica o próprio investimento, ou seja, seu patrimônio. 

Geralmente, o percentual indicado para iniciar é entre 5 a 10% do valor disponível para investimento. Em valores, algo a partir de R$ 20 mil.  Mas é recomendável que não comprometa mais do que 10% do seu patrimônio.

Além disso, é preciso estar preparado. “Este é um investimento de alto risco, algo que vai dar retorno daqui a seis, 10 anos. Se o negócio não der certo, o prejuízo não pode mexer muito em seu patrimônio”, explica Tiago Nicchellatti, consultor de inovação e novos negócios no Centro de Inovação Blumenau, mestre em administração, com mais de 12 anos de experiência docente em cursos de graduação e pós-graduação nas áreas de gestão empresarial. 

Mesmo reconhecendo o risco, Rafael não desiste de investir. “Eu sempre recomendo porque acredito que é a fonte da juventude: a gente cresce, perde, ganha, aprende e rejuvenesce. Eu invisto porque acredito no poder da transformação das pessoas”, relata.

Ciente deste risco, mas apaixonado por startups, o empreendedor Thiago da Silva está vivendo do outro lado do balcão. Sua empresa de software recebeu investimento anjo no segundo ano de existência da startup. Três anos depois, agora é ele quem está retribuindo. Incentivado por um amigo, passou a ser um investidor anjo. 

“Na época em que recebemos o aporte ganhamos mais visibilidade de mercado, mais portas abertas, conquistamos mais projetos, muito mais pelo smart do nosso anjo, pelo networking dele”, comenta Thiago.

E é nisso que Thiago, e tantos outros empreendedores que já receberam aportes de investidores anjo, acreditam. “Muitas vezes o CEO da empresa quer levar smart para o negócio, levar o conhecimento do investidor, não só o money”, destaca.